Segurança do paciente precisa estar no DNA

Entenda porque a segurança do paciente precisa ser colocada no foco da gestão

Se erros na assistência em saúde fossem classificados como uma “doença”, eles seriam a 3a causa de morte nos Estados Unidos da América. Esta é a contundente conclusão do estudo publicado em 3 de maio de 2016 em uma das mais importantes revistas médicas de maior impacto no mundo, o British Medical Journal.

Para se ter uma ideia, nos EUA (dados do CDC) são 611.105 mortes anuais por doenças cardiovasculares, 584.881 mortes por todos os tipos de câncer e, a seguir, estão as doenças respiratórias crônicas, com 149.205 mortes anuais.

Dentro da estimativa conservadora utilizada pelos pesquisadores que escrevem o artigo para mortes por erros de assistência, chega-se ao número de 251.454 mortes anuais nos EUA. Daí surge a triste terceira colocação.

Os autores, que são originários da Johns Hopkins University School of Medicine, nos EUA, uma das instituições hospitalares mais importantes deste país, deixam bastante claro que este problema deve virar a grande prioridade de pesquisas e recursos gastos pelas instituições de saúde.

Mas, para começar, é necessário enxergar esta realidade. Isso porque atualmente classificamos as mortes com base em sistemas de codificação, no caso o Brasil e muitos outros países, o CID-10 (10a edição da Classificação Internacional de Doenças). Tal sistema não prevê a possibilidade de caracterizarmos uma morte como sendo causada por uma falha assistencial. Isso pode ser facilmente incorporado às rotinas das tradicionais Comissões de Óbito dos hospitais, órgãos obrigatórios, mas que, muitas vezes, não são utilizadas em todo seu potencial. Ou seja, cada instituição deve ter seu próprio diagnóstico desta realidade.

Em segundo lugar, devemos conseguir investir os mesmos esforços que temos com as causas mais comuns de morte (doença cardiovascular e câncer) em erros de assistência. Voltamos muito dos nossos recursos, desde intelectuais até mesmo de força de trabalho, com grande enfoque para lidar com um infarto agudo do miocárdio, um acidente vascular cerebral ou um câncer de mama. Mas quanto se investe para detecção ou diagnóstico de erros, mitigação de danos ou mesmo prevenção destas ocorrências?

De fato, as instituições não estão completamente fora deste foco. Há o uso dos processos de acreditação para gerar melhoria assistencial, há o seguimento de protocolos e normas nacionais e internacionais voltadas para segurança do paciente. Mas por que ainda não melhoramos?

Afinal, devemos assumir que esta realidade dos EUA é completamente aplicável ao Brasil. Não podemos tapar o sol com a peneira. Os hospitais não solucionaram as questões de segurança do paciente. Continuam tendo resultados oscilantes em termos de qualidade, e mortes desnecessárias continuam ocorrendo.

Parte disso é porque a agenda da qualidade e segurança ainda não foi de fato incorporada ao DNA das instituições de saúde. Metas de segurança já se tornaram mais difundidas nas instituições, mas ainda não são a verdadeira agenda a ser cumprida, pois sempre há uma competição desleal com os resultados financeiros.

E essa incorporação do olhar de segurança do paciente precisa começar na alta gestão, nas lideranças mais importantes da instituição, e a seguir vir descendo para cada nível, até que se importar com segurança do paciente seja algo medular a cada integrante do hospital.

Eu já presenciei líderes tomarem decisões em que o foco financeiro canibalizou o foco de segurança. No dia em que eu ouvir falar do inverso, que uma decisão da alta gestão preservou um resultado de segurança em detrimento de assumir um risco financeiro, aí sim podemos imaginar que estamos no rumo certo.

*artigo escrito por Lucas Zambon – Diretor Científico do IBSP, médico supervisor da disciplina de Emergências Clínicas do HCFMUSP e assessor de Práticas Assistenciais da Superintendência Médica do Hospital Samaritano de São Paulo.

Crédito: Saúde Online – Grupo Mídia

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